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Escuridão Física

por Tom Zé

 Quando o público aplaudia o final do show “O som livre” de Gal Costa e Tom Zé, que apresentávamos no Teatro de Arena, em São Paulo, Renato Consorte entrou no teatro, tomou o microfone e disse: “Um momento, por favor”. O tom de sua voz era tão grave, tão sério, que praticamente já dava a notícia. Enquanto ele falava – informando sobre o AI-5 e tecendo comentários –, uma pessoa da produção, movida pelo susto, já se movimentava afobadamente, pedindo ao técnico de som para cortar o som do microfone. Não entendi o que estava acontecendo, quando o som foi cortado. Mas, como o Teatro de Arena era um teatro de arena, Renato Consorte, com sua voz treinada de ator, dispensou o equipamento e falou com a força da goela. Então a luz se apagou. O público agia num misto de medo e solidariedade, como se aquele som cortado e aquela luz apagada fossem a própria mudez e escuridão em que o País mergulhava. ÁLGEBRA Nas primeiras páginas dos jornais, todas as manchetes tinham duas ou três palavras e aquela sigla ou fórmula aparentemente matemática: AI-5. Eu, na intuição das correntes, me ausentava no tempo e re-via no quadro negro do Ginásio Severino Vieira, em Salvador, uma equação algébrica qualquer: O pensamento parece uma coisa à-toa Mas como é que a gente voa… quando começa a temer. Foi essa antimusa que atingiu as vidas de todos nós. Até censores nos tornamos. Eu lembro que, por um argumento qualquer de que me convenceram com as aspas da conveniência nossa própria equipe de trabalho censurou naquele show minha canção “Sabor de burrice”, porque, além de outros trechos “perigosos” da letra, a canção tem este “discurso político” final: Se neste momento solene Não lhes proponho um feriado comemorativo Da sacrossanta glória da burrice nacional É porque, todos os dias, Graças a Deus, Do Oiapoque ao Chuí, Ela já é gloriosamente festejada. “Pode ser que eles entendam mal”. “Ora, minha Nossa Senhora…” Houve uma época, depois de 1º de abril de 1964, quando a gente só respirava pela página do Correio da Manhã, na qual Carlos Heitor Cony escrevia aquelas crônicas. Era um tubo de oxigênio. Mas, depois do AI-5, não me lembro de qual foi a UTI que nos socorreu. CENA 2 – FUNDÃO DO DOPS: Um médico – que havia sido preso no mesmo dia, por socorrer um “inimigo da Pátria” baleado –, assustado, com medo – eu não o via, só o ouvia –, pedia para confessar qualquer coisa, a qualquer pessoa. Insistia: “Eu quero confessar, eu quero confessar”. ——————————————————————————– *Tom Zé é Cantor e compositor. Texto republicado no especial “AI-5, quarenta anos”, em 10/12/2008

Written by ocavirtual

janeiro 14, 2009 às 4:08 pm

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